Relação família escola – Trabalhando valores no lar

Relação família escola – Trabalhando valores no lar


Por Celso Antunes
O ardente desejo para que nossos filhos possam ter vida pautada pela honra e pela dignidade não é sorte, não se alcança porque por ela se aspira e deseja, mas sim pela educação que a criança e o adolescente recebem na escola e, sobretudo, no lar. Afinal sabemos que as crianças não matam, não roubam, não violentam e se essas ações para alguns aparecem mais tarde na vida, não pode ficar qualquer dúvida de que aconteceram erros na longa trajetória educacional. Em síntese, princípios morais e valores éticos não se herdam geneticamente, se aprendem com a educação que se recebe.
Mas, como ensinar valores? Qual a pedagogia eficiente, qual método garante a certeza do sucesso?
A resposta, ainda que conhecida, não é fácil e nem se deixa iludir pela ingenuidade da síntese. A formação integral da pessoa humana requer unidade nos fundamentos propostos em todas as etapas da vida, coerência irrestrita entre o que se aprende no lar e na escola, no cinema e na rua, entre os amigos e os programas, nos fundamentos da fé que professa e da filosofia com a qual observa e convive. Nenhuma organização ou instituição isoladamente pode fazer pela dignidade integral da pessoa humana o mesmo que a soma desses diferentes e muitas vezes divergentes agentes.
Nem por isso, entretanto, o papel da família pode ser diminuído, nem pela importância dessa soma é possível esquecer a imensa força paterna e materna na lenta e progressiva construção de sentimentos positivos. O que esta crônica busca é assim destacar o papel e as ações dos pais para uma educação de valores.
O primeiro e mais importante item que se faz presente na hierarquia é a cuidadosa seleção dos valores que com a educação dos filhos se pretende incutir. Impossível educar valores se não se tem com clareza quais são esses valores. Marido e mulher independente de estarem juntos ou separados devem assumir com coerência, firmeza e unidade uma linguagem comum sobre quais valores acreditam ser importante educar. A relação é extremamente vasta e nem sempre o que uma cultura, fé ou ideologia propaga é idêntico ao estabelecido por outra. Assim, pois, é essencial que o pai e a mãe, mas também eventuais empregados e outros parentes próximos, saibam no que se acredita e se atribui relevância. Família que não sabe por quais caminhos pretende levar seus filhos, corre o risco de não levá-los a caminho algum.
Mais ainda, defendemos a clareza indiscutível na proclamação desses valores, até mesmo quem sabe como um amplo conteúdo que se prende a uma porta como que a mostrar por quais linhas a coerência familiar pretende caminhar.
Estabelecida com firmeza a relação dos valores – da mesma forma como toda grande empresa enfatiza a todos sua missão – cabe à reflexão sobre em quais momentos e circunstâncias serão esses valores apresentados, propostos, exemplificados, discutidos e materializados.
Através de conversas informais? Pelas histórias e fábulas que se comenta? Pelos caminhos de boas leituras que se sugere? Ao longo dos inúmeros exemplos que se exalta? Não é fundamental que todas as famílias sigam igual roteiro, mas é imprescindível que esse roteiro de ações exista. É importante enfatizar que a capacidade da mente humana assumir procedimentos positivos é diretamente proporcional à insistência metódica com que são esses procedimentos praticados.
Quando existe firmeza na identificação do quadro de valores a se formar e existe também definição de instantes e atividades para esses exercícios, chega o instante de colocar em prática os procedimentos atitudinais, que pela força do exemplo, são assimilados com persistência. Quais seriam esses procedimentos?
Pelos menos três constituem unanimidade entre educadores, nessa ou naquela cultura, neste ou naquele país. São eles:
 Jamais esquecer a frequência, se possível diária, do diálogo, nunca se afastar da gostosa rotina de se perguntar muito e sempre e mais ouvir que falar. Não como quem quer investigar, mas como quem mostra a terna curiosidade de compartilhar, cada momento, cada amizade, cada lição, cada tombo, cada sucesso por menor que seja.
 Agir com coerente firmeza a austera prática do “não”, mostrando que crescer significa compreender regras e que assumi-las é sempre gesto de dignidade e grandeza. É evidente que é bem mais gostoso dizer “sim” que dizer “não”, mas não há como esconder que toda excelente educação se fundamenta na coerência de se recusar quando é importante negar. Crianças e adolescentes querem e necessitam crescer com a firmeza da segurança que jamais se confunde com a ilimitada e passiva permissividade de quem tudo cede. Jamais impor o “não” agressivo e prepotente, mas com a firmeza de quem por ser adulto sabe como muitas vezes na omissão ou fragilidade da negação, se escondem passos que uma vez iniciados não é mais possível esperar retorno.
 A esses fundamentos, acrescentar a sinceridade plena do elogio e reconhecimento por todas as conquistas, ainda que pequenas. Houve um tempo em que se pensou que a alta autoestima se firmava pelo apego à sobrevivência. Hoje não mais se ignora que sua base é o orgulho com que se cresce acompanhado por olhares amigos que não deixam de se encantar pelas vitórias, mesmo pequeninas, que em cada jornada sempre se impõe.
Exposta as linhas dessa simplória e simples pedagogia dos valores é natural que se indague: mas, é somente isso? A resposta, observada pelo prisma do que é hoje uma triste rotina social, é afirmativa, ainda que com a sutil mudança: é “tudo” isso.
Celso Antunes é bacharel e licenciado em Geografia pela Universidade de São Paulo, mestre em Ciências Humanas e especialista em Inteligência e Cognição. Membro consultor da Associação Internacional pelos Direitos da Criança Brincar, reconhecida pela UNESCO, é autor de cerca de 180 livros.
Mais informações: www.celsoantunes.com.br

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