Promover o pensamento crítico para a independência

Promover o pensamento crítico para a independência

Desenvolva a autonomia como atitude diante da vida

Questionar o mundo ao redor e analisar a veracidade das informações levando em conta evidências objetivas nos torna menos influenciáveis a manipulações e a informações errôneas.

O pensamento crítico é um processo intelectual que se realiza de forma consciente e autorregulada e que exige usar a lógica para chegar a um juízo razoável analisando, avaliando, interpretando, inferindo e explicando a realidade por meio de questões evidenciáveis e objetivas. Consiste em ser receptivo à informação, questionando-a, sem aceitá-la de imediato.

Devemos usar a inteligência de maneira racional e eficaz

Pensamos o tempo todo, mas nosso cérebro não pode processar simultaneamente toda a informação que recebe. Assim, utilizamos alguns “atalhos” para funcionar de maneira adequada, o que faz com que, em muitos momentos, simplesmente acumulemos informação de maneira sistemática, sem parar para analisá-la, ou que baseemos o pensamento em preconceitos e outras ideias distorcidas.

Apesar da comodidade que esse recurso proporciona, é imprescindível treinar desde cedo as habilidades necessárias para usar a inteligência e o conhecimento de maneira racional e eficaz.

As características do pensamento crítico, segundo o Miniguia para o pensamento crítico (2003) são:

  • Receptividade: capacidade de realizar observações detalhadas sobre um objeto ou informação e emitir conclusões.
  • Questionamento e reconstrução do saber: estar aberto a novas descobertas, relacionar conhecimentos novos com antigos.
  • Questionamento permanente: não ser conformista; buscar e enunciar o porquê de tudo.
  • Mente aberta: não ter opiniões rígidas, mas disposição para aceitar as ideias dos outros e reconhecer os próprios equívocos.
  • Coragem intelectual: enfrentar as decisões difíceis ou não aceitar as críticas dos outros.
  • Autorregulação: capacidade de controlar a maneira de pensar e de atuar.
  • Controle emocional: manter a calma diante de ideias ou pensamentos contrários aos seus e não se deixar levar por impulsos.
  • Avaliação justa: dar às opiniões e acontecimentos o valor que objetivamente mereçam.

Por que é importante que as crianças aprendam a pensar de maneira crítica?

As crianças estão sempre aprendendo, e o pensamento crítico lhes permite evitar a memorização e a rotina e realizar aprendizados significativos. Ou seja, pensar a partir do que estão aprendendo para que o conteúdo faça sentido para elas, e não seja uma mera acumulação de dados.

Pensar criticamente favorece a motivação e a curiosidade para aprender, já que a criança é o ator principal do processo, e não apenas um receptor de informação. Além disso, favorece o desempenho acadêmico, já que também prepara para a aquisição de competências matemáticas, de leitura e de escrita, e facilita a compreensão do método científico.

Assim, pensar de maneira crítica é pensar de maneira racional, levando em conta as possíveis opções e suas consequências, sem se deixar levar pelas emoções, o que constitui uma vantagem para resolver problemas e tomar decisões.

A capacidade de questionar a realidade e analisar a veracidade das informações levando em conta evidências objetivas também nos torna menos influenciáveis a manipulações e a informações errôneas.

Em síntese: pensar criticamente fomenta nas crianças a capacidade de antecipar acontecimentos e atuar diante deles com autonomia e responsabilidade; de ser mais flexíveis no nível cognitivo; de não se deixar levar por preconceitos; e de ser mais tolerante diante de diferentes pontos de vista.

Como desenvolver o pensamento crítico nas crianças?

Existem crianças são mais curiosas do que outras e questionam o mundo de maneira natural. No entanto, todas podem aprender habilidades de pensamento crítico, e tanto pais como professores são os melhores orientadores desse processo. A seguir, apresentamos sugestões de atividades para desenvolver o pensamento crítico:

  • Sempre que uma criança pergunta o porquê de alguma coisa, é importante não responder de modo direto, mas perguntar o que ela acha, para que primeiro chegue às próprias conclusões. Depois disso, o adulto pode fornecer informação adicional.
  • Realizar atividades nas quais ela tenha que avaliar detalhes. Por exemplo, pedir que observe bem uma ilustração ou um quadro e perguntar: “O que você acha que está acontecendo aqui?”; “Por que acha que isso está acontecendo?”.
  • Agir como modelo, pensando em voz alta quando precisar resolver um problema ou situação.
  • Antes de uma leitura, seja um livro ou uma atividade para casa, fazer perguntas, para que a criança se conscientize da informação prévia que já tem sobre o tema.
  • Ao terminar uma leitura ou atividade para casa, perguntar à criança o que ela sabia antes e o que sabe agora sobre o assunto, e se algo mudou em relação ao que pensava.
  • Sempre que possível, permitir que a criança aprenda mediante projetos nos quais tenha que buscar, analisar, resumir e apresentar informações obtidas em várias fontes, pois isso exige que se aprofunde no assunto pesquisado.
  • Ensiná-la a avaliar o trabalho de maneira objetiva. Por exemplo, pode registrar o que aprendeu – escrever a respeito implica tomar consciência do que sabe –, sintetizar, expor e, posteriormente, cotejar a informação que possui com a obtida em outras fontes (livros, enciclopédias etc.) para corrigir informações, incluir dados ou eliminar o que não é relevante.
  • Trabalhar na realização de inferências. Por exemplo, tanto em um relato oral como em um filme ou texto, o adulto pode perguntar à criança por que determinados fatos acontecem e como ela os interpreta. Ao ler um texto, trabalhar com o estabelecimento de hipóteses, focando as perguntas não apenas em questões de memória (o que, como, quando, onde), mas também em aspectos que não constem de forma literal, mas que ela deve extrair de seus conhecimentos prévios.
  • Ajudá-la a compreender conceitos de maneira crítica. Por exemplo, pedir à criança que procure um conceito no dicionário e depois perguntar o que aquele termo significa para ela, solicitando que o aplique em alguma frase ou em algum exemplo espontâneo.
  • Ensinar a criança a trabalhar em equipe: compartilhar ideias com os outros, chegar a acordos e ceder em alguns aspectos.
  • Treinar a criança a resolver problemas cotidianos: identificar o problema, fazer um levantamento de ideias sobre possíveis soluções, pensar em vantagens e desvantagens de cada uma e decidir qual é a melhor opção.
  • Realizar debates sobre temas controversos nos quais a criança tenha que defender sua posição e também a contrária com argumentos, não com opiniões ou crenças.
  • Ensinar a criança a comparar informações. Por exemplo, perguntar a ela em que se parecem e se diferenciam dois conceitos, personagens ou histórias.
  • Quando ela se equivoca, fazer perguntas para ajudá-la a encontrar a solução correta e também estimulá-la a fazer perguntas para que se aprofunde na investigação e, em seguida, se corrija.
  • Transmitir-lhe valores essenciais como empatia, responsabilidade, tolerância e justiça, e que os utilize nos questionamentos que fizer da realidade.
  • Deixar, sempre que possível, que a criança decida com autonomia, para que aprenda a assumir a responsabilidade por suas decisões.

Paul, R. e Elder, Linda. La mini-guía para el pensamiento crítico – conceptos y herramientas. Fundación para el Pensamiento Crítico (2003).

ESPECIALISTA:

Aroa Caminero Ruiíz

PsicólogaPsicóloga clínica da Universidad Autónoma de Madrid, Espanha.

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